domingo, 23 de maio de 2010

Dilma e a Opinião Pública




No dia 03 de abril de 2010, o Instituto Vox Populi mediu que José Serra tem 34% das intenções de voto, contra 31% de Dilma Rousseff. Um pouco mais de um mês depois, o mesmo instituto divulga mudança no cenário: 37% dos eleitores votarão em Dilma e 34% em José Serra. Enquanto os militantes de cada um dos lados denunciavam fraudes, outro órgão de pesquisa confirma a vantagem da candidata sobre o ex-governador: Dilma aparece com 35,7% das intenções de voto e Serra com 33,2%. Num evidente esforço de se aproximar da opinião pública, o Datafolha divulgou no último dia 20 de maio o empate técnico entre os dois candidatos com 37% das intenções de voto cada um.
Diante dos números, surgem algumas perguntas: a que se deve a virada da Dilma? As intenções de voto ainda estão muito próximas e podem ser consideradas, no máximo, como empate, portanto, vai dar pra levar essa? Não vou arriscar nenhum palpite para as eleições de 2010; é um pouco desconfortável comentar politicamente o futuro, além do futuro em si. No entanto, não se pode silenciar diante de evidências.
Os números apresentados pelos institutos de pesquisa mencionados acima não permitem ir tão longe, mas não terei como fugir: está claro que o eleitorado não se incomodou em ter uma candidata mulher disputando o mais alto cargo do país. É curioso e paradoxal, como boa parte das características da cultura política brasileira, mas já é um ponto progressista a se avaliar.
Os resultados das pesquisas anunciam, cada vez mais, que o eleitorado tem elaborado com clareza que Dilma é a candidata de Lula. E isso não é inconsciente como muitos apregoam. Por esse argumento mentiroso também tentam explicar o aumento das intenções de voto na candidata do Partido dos Trabalhadores. Para muitos, a reposta está no fato de que Dilma caiu nas graças de uma classe pobre, iletrada, localizada em regiões periféricas do Brasil, muitas vezes de origem rural e, portanto, sem nenhuma consciência. Ainda não entenderam que todas as pessoas são dotadas de consciência e fazem dela o que bem entendem; que todos esses brasileiros sabem o que fazem e refletem sobre seus atos todo o tempo e escolhem Dilma justamente pelo fato de que ela representa a continuidade e a garantia dos direitos que conquistaram nos últimos oito anos.
Por isso, o povo, mais uma vez, poderá votar contra a opinião pública e eleger Dilma Presidenta da República. E aí os números de Vox Populi, CNT/Sensus ou Datafolha só tendem a aumentar mesmo.

Na foto, plenário do IV Congresso do Partido dos Trabalhadores vota pela candidatura de Dilma Rousseff (A foto é minha mesmo)

terça-feira, 18 de maio de 2010

Há 30 anos, morria Ian Curtis


Em 18 de maio de 1980, aos 23 anos de idade, o jovem vocalista da banda inglesa Joy Division enforcou-se na cozinha do seu apartamento. Interrompia-se ali a carreira do menino epilético, de voz grave (que parecia incompatível com sua frágil aparência) e versos carregados de referência à dor, morte, tristeza e destruição, que liderava a banda mais importante do pós-punk na Inglaterra.

Curtis era uma figura de enorme talento e forte presença no palco. Além da voz de barítono, seu estranho jeito de dançar, inspirado nos ataques epiléticos que o acometeram por toda a vida (e que foi descaradamente copiado no Brasil por Renato Russo, uma espécie de xerox tupiniquim e sem talento de Curtis) transformou-se em uma marca registrada da banda.

O Joy Division gravou apenas dois álbuns de estúdio: o lendário "Unknown Pleasures" e o também excelente "Closer", além de vários compactos, sendo "Love Will Tear Us Apart" o de maior sucesso. O suficiente pra inscrever a banda de trágica e meteórica trajetória nas páginas da História do rock.

Após a morte de Curtis, os membros remanescentes do Joy Division honraram o acordo de que a banda só existiria enquanto os quatro seguissem juntos e reorganizaram-se sob o nome de New Order, com estética menos sorumbática e sonoridade mais eletrônica.

Geléia Geral aproveita a data pra prestar uma singela homenagem à Curtis e ao Joy Division.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Boas vindas

Eu tinha que contar sobre minha empolgação por participar dessa Geléia e ser, por ora, a única ingredienta feminina. Nunca sei o que isso significa, mas deve significar. Há tempos desejo entrar na blogosfera e já me aventuro num projeto delicioso com uma amiga, Letícia Gregório Canelas, o Zona de História Autônoma Temporária-Não lugar de tempo algum do qual, até hoje, participei apenas mentalmente. Aliás, somos historiadoras de paixão e formação.
Aproveito para agradecer o convite do Bernardo Cotrim a quem chamo de “historiador de meia pataca” há uns dez anos e que me enquadra todas as vezes que desvios libertários me levam a alucinação. O que ele esqueceu de dizer na singela bio é que, além de não gostar e de não entender de futebol, não tenho o menor senso de humor e posso chegar ao cúmulo de explicar piada. (E é o que farei em seguida.)
Aqui espero dar vazão à paixão, já que em 2010 teremos as eleições mais quentes e disputadas desde 1989. Espero, no Geléia, explicar e entender minhas opiniões, aquelas que já venho difundindo há meses em formato de pios.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Coerência é virtude. Teimosia, no entanto...

Antes que me acusem de "corneteiro", "gato-mestre" ou alcunhas similares, quero deixar claro: a seleção treinada por Dunga é eficiente e tem chances reais de voltar da África do Sul com o caneco. Julio Cesar é um goleiro fantástico, Maicon e Daniel Alves são os melhores laterais da atualidade, a dupla de zaga formada por Lúcio e Juan alia experiência, vigor, técnica e colocação, Elano fez boas atuações com a amarelinha, Kaká é um baita jogador e a dupla de ataque formada por Robinho e Luís Fabiano é de bom nível.

Isto posto, vamos ao assunto central: a convocação feita por Dunga é um prêmio à mediocridade, à falta de imaginação e reflete a teimosia travestida de "coerência" de um personagem conservador, arrogante e que posa de "rebelde" pra imprensa ao mesmo tempo em que esbanja subserviência ao comando da CBF.

É evidente que, para o torcedor em geral, um título mascara os questionamentos ao trabalho. Mas cá entre nós, analisando objetivamente o trabalho de Dunga, é impossível engolir as críticas ao escrete do treinador canarinho.

Pra começar, o time brasileiro não tem banco de reservas. Esse é o maior erro da convocação do Dunga: os 23 selecionados não lhe dão alternativas táticas. Se o Brasil estiver em dificuldades, o que fazer para mudar o jogo? Colocar em campo Grafite, Kleberson e Julio Baptista?

O primeiro, centroavante de força física e boa colocação, não joga metade da bola que o questionado Adriano, mesmo às turras com a balança e incapaz de separar-se do copo. A média de gols de Adriano, no primeiro semestre de 2010 (quando houve uma enorme queda no seu rendimento) é superior à média dos 4 atacantes convocados por Dunga.

No meio campo a situação é pior: o irregular Kleberson é um Elano piorado, com a vantagem de jogar pelos dois lados; e o apenas correto Julio Baptista, substituto de Kaká, é absolutamente incapaz de protagonizar a jogada que define uma partida, aquele lampejo de criatividade que só os jogadores acima da média executam.

Além disso, os volantes convocados fizeram, com exceção de Ramires, temporadas pavorosas em clubes medianos. Gilberto Silva joga no "poderoso" futebol grego, Felipe Mello colecionou fiascos na Juve e Josué dispensa comentários.

Por último, a lateral esquerda: Michel Bastos e Gilberto. O primeiro, uma espécie de meia direita avançado no Lyon (posição parecida com a de Messi no Barça, na temporada passada), o segundo atuando como camisa 10 do Cruzeiro. Se a posição, de fato, é carente de alternativas, me parece que Dunga tinha alternativas melhores.

O fato é que a chamada coerência de Dunga não dialoga com a realidade do futebol. Não é coerente convocar um jogador mediano que é reserva em seu clube, como Julio Baptista, e deixar em casa o jovem Ganso e o experiente Ronaldinho Gaúcho, ambos capazes de, em uma jogada, decidir uma partida. Se, de fato, não temos como garantir que Ganso suportaria a pressão de um Mundial e que Gaúcho se apresentaria interessado e em forma, é inegável que não dá pra depender do Julio Baptista.

Tão pouco é coerente convocar 3 volantes de pouca técnica e em má fase quando temos alternativas melhores. Tiago Motta é titularíssimo da Inter de Milão, Lucas é das poucas coisas que se salvaram na temporada medíocre do Liverpool, Renato é titular absoluto do Sevilla há anos, Elias é o motor do Corinthians... dá até pena comparar o meio campo brasileiro ao espanhol, formado por Xabi Alonso, Fábregas, Xavi, Iniesta e Silva.

Dunga perdeu uma excelente oportunidade de surpreender positivamente quem gosta de futebol. Pode até ganhar o título, mas seu time, moldado à imagem e semelhança da burocrática seleção de 94 (mas desprovido do talento de Bebeto e Romário!), não empolga ninguém. Se coerência é uma virtude, a teimosia é uma grande burrice.

PS: Não vou falar de Doni. Beira as raias do absurdo a convocação de um goleiro brasileiro que nunca se destacou em clube algum e que é reserva de OUTRO BRASILEIRO! Se Julio Cesar se machucar e Doni assumir, no auge da forma técnica de quem não vê a cor da bola sem ser em um treino há meses, Dunga periga voltar da África do Sul diretamente pro elenco da Turma do Didi...

terça-feira, 11 de maio de 2010

Geléia Geral, a fênix da blogosfera


Enfim, de volta ao trabalho! Após 1 ano sem atividade, o Geléia Geral ressurge das cinzas e retoma sua atividade militante, recreativa e por vezes corneteira.

Existem vários responsáveis pela nossa ressurreição: nossas obrigações militantes com a campanha da Dilma, o início do campeonato brasileiro, a reta final da Libertadores e a lista de convocados do Dunga, a reta final da nova temporada de House e a nossa necessidade de tomar vergonha na cara.

O blog volta com o mesmo nome e o mesmo leiaute pavoroso (ainda não conseguimos aprender a mexer na ferramenta), mas com temática ampliada e novos colaboradores esporádicos e permanentes.

O primeiro reforço é Glaucia Fraccaro, historiadora, militante, intelectual, amiga de copo e dublê da Carolina Dieckman (ela fica furiosa). Glaucia, além de trabalhar no Núcleo Sérgio Buarque de Hollanda da Fundação Perseu Abramo, arruma tempo pra estudar a classe trabalhadora brasileira, pra comentar livros, sacanear os tucanos e, agora, pra colaborar com Geléia Geral. Seu grande defeito é não gostar de futebol...

Nosso objetivo é correr atrás do prejuízo e compensar nosso ano de ócio com uma produção frenética. Continuaremos falando de política, futebol, cinema, música, literatura e o que mais der na nossa telha. Também estamos abertos a novos colaboradores e estaremos antenados com os nosso blogs parceiros, de onde poderemos chupar colaborações compulsórias.

Espero que vocês se divirtam com o nosso retorno. Nós, com certeza, vamos nos divertir trabalhando.

Um grande abraço,
Geléia Geral

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Nota triste

Morreu ontem o grande Zé Rodrix. Compositor de inúmeras pérolas do cancioneiro brasileiro, Rodrix apareceu no festival da canção tocando com Edu Lobo, gravou um disco lendário com Jards Macalé, ficou famoso na voz de Elis Regina e integrou, junto com Luiz Carlos Sá e Guttemberg Guarabyra, o trio Sá, Rodrix & Guarabyra, presença obrigatória em qualquer genealogia do rock brasileiro.
Rodrix morreu em São Paulo, aos 61 anos de idade, e vai fazer muita falta. Quem quiser matar as saudades do som característico do orgão que ele tocava pode conferir o vídeo abaixo, com Sá, Rodrix & Guarabyra tocando "Mestre Jonas" - minha música preferida deles.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Estamos voltando...

Pessoal que nos acompanha!
Estamos resolvendo nossa crise editorial, que já dura alguns meses, e em breve retornaremos.
Abraços.
Geléia Geral

sábado, 20 de dezembro de 2008

"Presentes" Natalinos... Vasco larga na frente!

Com o movimentado fim de ano do "mercado da bola", o Vasco parece largar na frente dos rivais para a temporada 2009. O primeiro grande reforço a ser anunciado é ninguém menos que o craque Jaílton, que trocará o Flamengo pelo clube de São Januário. A emotiva - e não menos equivocada - homenagem do Miguel ao Vasco da Gama parece ter comovido os corações da solidária diretoria do Flamengo neste fim de ano. Depois de um campeonato brasileiro assustador, quando cometeu 128 penaltis, o Volante/Zagueiro/Boiadeiro é a garantia de fortes emoções aos padeiros espalhados pelo Brasil. Seria um gesto de cordialidade do Presidente rubro-negro Márcio Braga, que declarara estar assustado com o rebaixamento do clube cruzmaltino à vice-divisão nacional, reforçando a equipe de São Januário com o jagunço da gávea. Fico imaginando Jailton na série B, liderando o Vasco ao almejado e inédito vice-campeonato da segunda divisão nacional. Agora vai!!!

Brincadeiras à parte, tenho ficado assustado com as notícias do esporte bretão neste fim de ano. O troca-troca entre os principais times do brasil parece ter transformado jogadores medianos em grandes boleiros.

O Fluminense, que perdeu Júnior César para o São Paulo, parece não estar tão preocupado com a saída do lateral. Lá na capital paulista a repercussão foi bem diferente, ao ponto de iludir inclusive o grande PVC, que em seu blog destacava a contratação com o título "Júnior César no São Paulo. Mais um grande reforço". E acreditem, ele era disputado também pelo rival Palmeiras, que abriu mão do lateral Leandro.

Já o Botafogo, não deve ter lamentado muito a saída do zagueiro Renato Silva também para o São Paulo. O clube paulista, que já conta com 25 zagueiros no seu elenco, parece não estar satisfeito com os jogadores Juninho e Anderson, e decidiu reformular a reserva do setor defensivo. Novamente, PVC dizia em seu blog que era mais uma boa contratação para compor o banco do São Paulo, destacando as boas passagens de Renato Silva por Goiás e Botafogo (é mesmo???), ainda que tenha fracassado no Flamengo e no Fluminense.

O Flamengo, que está de olho na saída do bom zagueiro Anderson, está se reforçando muito bem. A grande notícia da semana foi a saída do volante Jaílton para o Vasco. Mas como na gávea as bizarrices são eternas, especula-se que o clube está tentando a contratação de Diguinho, que está de saída do botafogo. Outros nomes falados são os Carlos Alberto "Feijoada" , Adriano "Cachaça" e Zé Roberto "Cachacinha". Já vi esse filme... Mas faço uma aposta: se o Imperador cachaceiro voltar, vai dar muito samba! Ainda mais num time em que Obina é o titular!

Na contramão dessas loucuras do futebol brasileiro, algumas boas investidas. O Palmeiras, embora tenha perdido Alex Mineiro e Leandro, trouxe Marquinhos (destaque pelo Vitória) e Keirrisson. Essa, para mim, é a melhor contratação até o momento. Washington no São Paulo e Reinaldo no Botafogo (em menor importância) também foram boas contratações.

É esperar os pacotes de natal e aguardar as demais negociações para ver no que vai dar...

E se alguém me perguntar sobre a ida do Ronaldo "Fenômeno" para o Timão, a imagem abaixo diz tudo!




segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Minha Homenagem ao Vasco


Muito mais sério q o resto da redação dese blog, e passado alguns dias para digerir a queda para segunda divisão, quero colocar aqui minhas impressões sobre esse momento e fazer a devida homenagem ao Clube de Regatas Vasco da Gama.

O sentimento é de orgulho. Digo isso com tranquilidade sobre a torcida vascaína. Os vascaínos recuperaram o orgulho de vestir essa camisa q tanto representa para o futebol brasileiro, no combate ao racismo, na formação democrática do país, na movimentação da torcida para construção do estádio de São Januário... O Vasco tem seu lugar na história. E agora volta a honrá-lo. Como bem lembrou PVC, o Vasco é o único dos grandes times brasileiros q vem da segunda divisão, não teve seu lugar cativo na primeira divisão garantido por tramóias da elite branca e européia q queria ver seus times nos lugares mais altos do pódio a qq custo. E agora o Vasco vai buscar sua reabilitação na segunda divisão do campeonato brasileiro. É uma esperança. Um novo ano, uma nova diretoria, uma expectativa de reconstrução... vamos ver.

Reproduzo agora um texto q foi publicado no blog do torcedor do Vasco na Globo.com. Na verdade ele foi publicado antes, em outro blog das organizações globo, mas isso não importa, mas sim seu conteúdo... vamos a ele. O sentimento não pode parar!

A História reescreve o orgulho de ser vascaíno  Nélson, Mingote e Leitão; Arthur, Braulio e Nolasco; Paschoal, Pires (Dutra), Bolão, Torterolli e Negrito. Técnico: Ramón Platero.  Qual a impotância desse time para a história do Vasco?

Não, não são os jogadores que venceram o Campeonato Sul-Americano de 1948, tampouco participaram de um Campeonato Brasileiro, muito menos estavam vivos para verem a América ser nossa pela segunda vez em 1998.

Esse foi o time que deu ao Vasco o título da 2ª divisão do Campeonato Carioca.

Sim, o Vasco já disputou a segundona carioca, contra potências como Palmeiras (?), Carioca (??), Mackenzie (???) e Mangueira (!).

Viemos de baixo.

Não nascemos de nariz em pé, não somos filhos da aristocracia carioca.

Somos o time dos negros, dos operários, daqueles que não podiam jogar futebol por não ter um sobrenome inglês, por não ter a pele alva européia ou simplesmente por não ter dinheiro.

Esse time de excluídos ascendeu à primeira divisão e logo em seu ano de estréia fez história, conquistou o título, arrebatou corações e deixou a elite futebolística indignada...

"Como assim um time de 'inferiores' vem jogar o nosso campeonato, nos nossos estádios e sai campeão???".

Fomos impedidos de disputar o Campeonato Carioca do ano seguinte.

Motivo alegado: não tínhamos um estádio. Motivo verdadeiro: preconceito.  E eis que esse time resolve fazer história novamente.

Sua torcida se une, faz uma campanha de arrecadação e constrói em pouco tempo aquele que seria o maior estádio da América Latina até a construção do Maracanã: o Estádio de São Januário, o nosso Caldeirão.  Poucos clubes no mundo podem se orgulhar de ter uma história tão bonita de luta, superação, respeito e amor.

Muito mais podemos tirar dessa nossa bela história, mas escolhi esses dois momentos pois eles não saiam da minha cabeça após o jogo contra o Vitória.

Meu sentimento é que nós, torcedores, andávamos meio adormecidos, quietos, nossa história andava esquecida no meio de tantas mazelas que assolaram nosso amado Vasco nos últimos anos.

Quis o destino que fosse preciso passar por uma provação como a que passamos nesse Campeonato para que retomássemos nossa devoção ao clube, que trouxéssemos o Vasco de volta às suas origens: o Vasco é da torcida, aquela mesma que se encantou com o time do subúrbio que não tinha estádio e que se uniu para construí-lo.  Fim do jogo, Vasco rebaixado à Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro.

Eis que o caldeirão outrora lotado vê parte do público ir embora.

Mas alguns teimavam em não sair, eu e meu pai entre eles.

Olhavam para o campo, para as arquibancadas, para a social, para a capelinha de Nossa Senhora das Vitórias, buscando no olhar do outro um conforto, uma esperança, um sentimento de irmandade.

E eis que de repente o então frio Caldeirão se ascende e o Hino que me faz arrepiar a cada vez que ouço é entoado aos milhares: VAMOS TODOS CANTAR DE CORAÇÃO, A CRUZ DE MALTA É O MEU PENDÃO!

E naquele canto, naquele orgulho de ser vascaíno, meus olhos se enchem d'água. Somos muitos, somos milhões, somos irmãos unidos no amor ao Gigante da Colina.

E naquele momento pensei nos jogadores que em 1922 escreveram um capítulo importante na gloriosa história do Clube de Regatas Vasco da Gama.

Viemos da segunda divisão e nos deparamos novamente com ela.

Nesse ano de resgates para o Vasco (o resgate da democracia, o resgate da torcida, o resgate do orgulho de ser vascaíno) não fomos rebaixados, mas sim fomos levados a revisitar uma parte esquecida de nossa história. Viemos de baixo para nos tornarmos gigantes.

E essa volta às origens certamente fará o gigante adormecido acordar ainda mais forte!  E nós, torcedores, tal qual nossos predecessores da década de 20, temos a missão de reconstruir São Januário...

Que nosso Caldeirão ferva a cada jogo na dura jornada de 2009.

Que cantemos ainda mais, que vibremos ainda mais, que nos unamos ainda mais!

Que possamos juntos reconduzir o Gigante ao caminho dos títulos!  Saí de São Januário com um sentimento estranho.

O Vasco fora rebaixado, mas mesmo após uma tristeza profunda eu sorri.

Não conseguia parar de pensar na nossa linda história, na luta contra o preconceito, na construção de São Januário, no amor incondicional que vi em cada olhar, em cada lágrima derramada no estádio.

E uma imagem não saía da minha cabeça: uma faixa com a frase que dá título a este texto. A história reescreve o orgulho de ser vascaíno.

E esse sentimento não pode parar nunca.

Hoje levei minha camisa do Vasco para o trabalho e pendurei na minha cadeira.

Fui jogar minha pelada devidamente uniformizado e ainda passei pela academia, sempre com a cruz no peito. E a cabeça erguida. E a cada piada, a cada comentário "você é corajoso", eu olhava pra cruz e a beijava. Reafirmava meu amor incondicional, minha certeza de que esta queda nos fará ainda mais fortes, ainda mais unidos, ainda mais vascaínos. E a cada beijo na cruz, lembrava de nossa história. E sorria.

Provavelmente me achavam louco os invejosos torcedores dos outros clubes, mas não estou nem aí.

Não há razão que explique o amor. Hoje eu olho para a cruz de malta ainda mais apaixonado por ela!  Grande abraço,  Francisco Kronemberger. 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Nossa homenagem ao Vasco

sábado, 6 de dezembro de 2008

Aprovação de Lula bate novo recorde e chega a 70%, aponta Datafolha

Pesquisa Datafolha divulgada pelo jornal "Folha de S. Paulo" nesta sexta-feira (5) aponta que a avaliação positiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, isto é, dos brasileiros que consideram o governo ótimo ou bom, chegou a 70%.

Trata-se de um novo recorde, com Lula alcançando um índice nunca atingido por outro presidente no país desde a redemocratização.

O levantamento foi feito entre os dias 25 e 28 de novembro. A margem de erro máxima é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Foram ouvidos 3.486 brasileiros com mais de 16 anos em todo o país.

Assim como na pesquisa anterior, quando Lula alcançou um recorde de 64%, o presidente teve avaliação positiva da maioria da população em todos os segmentos socioeconômicos e regiões do país.

Jovens e escolarizados

Nesta nova pesquisa Datafolha chamam a atenção o crescimento do apoio ao ao presidente Lula entre os mais jovens, os mais escolarizados e no Sudeste, com aumento de nove pontos em cada um destes itens. O Nordeste continua sendo a região com maior apoio a Lula: 81% de avaliação ótima ou boa.

Na comparação com a pesquisa anterior, a melhora na avaliação ocorreu principalmente devido à faixa de brasileiros que consideravam seu governo regular. Eram 28% em setembro, agora, são 23%. Outros 7% consideram o governo ruim ou péssimo.

Outros presidentes

O Datafolha mostra ainda qual foi a melhor avaliação de cada um dos presidentes desde Fernando Collor de Mello. Foi considerado o percentual de pessoas que considera o governo "ótimo" ou "bom". Veja abaixo:
Fernando Collor de Mello (1990-1992): 36%
Itamar Franco (1992-1994): 41%
Fernando Henrique Cardoso (1995-1998): 47%
Fernando Henrique Cardoso (1999-2002): 31%
Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006): 53%
Luiz Inácio Lula da Silva (2007-2010): 70%

Com agências

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Mais uma do Emir Sader

Urubus e aspirinas

No momento da posse de Fernando Lugo, como primeiro presidente democrático do Paraguai, terminando com a ditadura de 60 anos do Partido Colorado, a revista The Economist dizia que aquele seria o último presidente de esquerda a ser eleito na América Latina. E, como urubus, afirmavam que a nova agenda trazida pela recessão – duras políticas de ajuste – e a violência dominariam a pauta política do continente e como a exploração desses temas são essencialmente de direita, voltariam governos conservadores na América Latina.

Se esqueceram que, aqui onde estou, em El Salvador, pela primeira vez a Frente Farabundo Marti é claramente favorita para eleger o jornalista Maurício Funes, presidente da República, no dia 15 de março. Erro de avaliação ou desconhecimento da revista inglesa ou tentativa de fazer dos seus desejos, realidade.

A mesma coisa acontece com os urubus da imprensa em geral. Em toda a primeira metade do ano acenaram com o risco de descontrole inflacionário, sem se dar conta da recessão, já instaurada naquele momento, na economia dos EUA, com possibilidades reais de propagação para outros países, que gera riscos de deflação, exatamente ao contrário do que diziam os urubus. Erro de avaliação ou desconhecimento ou tentativa de fazer passar seus desejos mórbidos pela realidade.

Instaurada a crise, os radicais de direita se apressam a explorar uma situação provocada pelas suas políticas, para tentarem tirar partido e enfraquecer os governos progressistas. Tentam, a cada dia, gerar um clima de pânico, dizendo que as conseqüências para nós serão terríveis, que o governo não leva em consideração seus efeitos, etc., etc., buscando gerar o caldo de cultivo para medidas conservadoras, que são tanto do seu agrado.

Obsesionados pelos clichês que formam sua visão de mundo, não conseguem perceber o que há de novo. Pela primeira vez há uma profunda crise na economia dos EUA e da Europa, mas a economia brasileira não quebra. Os efeitos da crise se revelam muito mais fortes nos países que a geraram, do que aqui.

Os governos progressistas buscam minimizar as conseqüências da crise, tratando de evitar que se propague a recessão, porque sabem que ela afeta sua necessidade de suas economias de seguir crescendo e expandindo suas políticas sociais. A diversificação do comércio internacional, o aumento do comércio interegional e com o sul do mundo, a grande expansão do mercado interno, assim como a significativa diminuição do comercio com os EUA – são os elementos que possibilitam mecanismos de defesa dos países da região que privilegiam os processos de integração regional. Ao contrário, um país como o México, que assinou Tratado de Livre Comércio com os EUA (e o Canadá), fez com que tenha 90% do seu comércio com seu vizinho do norte e agora, diante da profunda e prolongada crise da economia norte-americana, sofrerá de maneira dura e direta os efeitos dessa dependência.

Os urubus continuam com sede de carniça. Querem que a crise - gerada pelo modelo que eles pregaram como o ideal e aplicaram durante duas décadas e agora se revela a fonte essencial da crise – leve à derrota dos governos atuais na America do Sul, que volte a direita, que os representa politicamente. Que as economias da região entrem em recessão, que as políticas sociais não possam ser levadas adiante, que os governos percam apoio, que volte a direita.

Enquanto isso, tem que tomar muita aspirina, para agüentar o sucesso de Evo Morales, de Rafael Correa, de Lula, de Hugo Chávez, que abatem os urubus no vôo.

Postado por Emir Sader às 11:28

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Os discos mais caros do mundo

O cara colocou um anúncio no mercado livre vendendo 50 vinis de soul e funk por mais de 1 milhão de reais. Pior: o preço é esse mesmo. A primeira vista a gente acha q é um erro de digitação, mas vendo as perguntas e suas respostas (o q, aliás, é o mais engraçado disso aí) vemos q o preço é esse mesmo. Surreal. clica pra ver

corrida de 100m

Quero ver quem consegue. Achei esse jogo no Ovelha Elétrica, um blog legal sobre várias bobagens. O obejtivo é correr 100m. Eu consegui chegar a 8.8, como mostra a imagem. Tenta lá, e posta nos comentários o seu recorde.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Sobre a crise internacional

Marcio Pochmann: Menos Estado e má repartição da riqueza: as razões da crise
em 27/11/2008



A crise econômico-financeira mal iniciou e já produz resultados nefastos que podem superar os de 1929. Somente nos primeiros nove meses de 2008, as bolsas de valores sofreram baixas superiores a 25%, sendo que, para alguns países, com queda acima da verificada nos Estados Unidos e na Inglaterra durante a Depressão de 1929. Parece não terem sido ainda mais profundas por força de uma ampla coordenação mundial de intervenções governamentais, com transferências significativas de recursos públicos aos setores atingidos e com maior poder de pressão.


Da mesma forma, prevalece uma intensa articulação política de países, como no caso do G-20, que busca novas brechas para a reversão dos equívocos provocados pela desregulamentação neoliberal e pelos artificiais avanços da financeirização sem fundamentação na produção de riqueza.


Desde o final da década de 1970, quando se tornou dominante a visão do Estado apresentado como obstáculo ao desenvolvimento, a liberalização da economia tomou força somente comparável ao ideário governamental do século 19. Naquela época de predomínio inglês, o capitalismo operava praticamente sem a presença de grandes empresas, apoiado na diversidade de micro e pequenos empreendimentos sem capacidade de impor seus preços a partir da somatória de custos mais margem de lucro. Bem diferente do que vem ocorrendo desde o último quartel do século 20, que demarca o longo processo de esvaziamento dos Estados Unidos enquanto centro dinâmico produtivo e financeiro do mundo. Assim como também aponta para a insuficiência da governança mundial operada a partir do sistema ONU (Organizações das Nações Unidas), por meio de agências multilaterais como Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, entre outras.


De um lado, o peso dos EUA na economia mundial reduziu-se significativamente, com a transferência de parcela do seu setor produtivo para outros países decorrentes da perda de competitividade das empresas e das políticas de enfraquecimento do Estado e do sistema de atenção à produção e emprego. Mesmo assim, os ideólogos do neoliberalismo continuaram a estimular a crença de que seria possível viver como país eternamente super rico num quadro geral de empobrecimento relativo, com consumo superior a 20% da capacidade anual de produção de bens e serviços e o endividamento 3,5 vezes maior que a renda nacional.


O próprio estopim da crise financeira terminou indicando o quanto a opção pela redução do Estado se mostrou inadequada para substituir as políticas sociais por forças exclusivas do mercado. No caso da habitação para os segmentos de baixa renda, por exemplo, o esvaziamento de políticas sociais específicas estimulou o setor privado americano a operar irresponsavelmente, emprestando em longo prazo a quem tinha oportunidade negada de acesso a empregos e remunerações decentes. A mesma situação se reproduziu às famílias levadas a acreditarem exclusivamente nos fundos previdenciários privatizados frente ao atual registro de quedas significativas no valor patrimonial, capaz de inviabilizar benefícios adequados de pensões e aposentadorias.


De outro lado, o papel quase simbólico atual das agências multilaterais construídas no final da Segunda Guerra Mundial, quando os países eram maiores, em geral, que suas empresas. Nos dias de hoje, as corporações transnacionais tornaram-se superiores ao produto anual de países, sendo o mundo, por isso, governado pelo poder privado de não mais do que 500 grandes grupos econômicos. As três maiores delas possuem faturamento anual superior ao PIB do Brasil, considerado o décimo mais rico do planeta, enquanto o faturamento das cinqüenta grandes corporações do mundo supera o PIB de mais de uma centena de países. Se consideradas somente as famílias enriquecidas pelo processo disfuncional de governança pública do mundo, observa-se que apenas um reduzidíssimo conjunto de menos de 1,2 mil bilionários chega a se apropriar de renda equivalente a da metade da população adulta do planeta.


O caráter privado da desregulação mundial termina por gerar situações inaceitáveis, como as atuais crises alimentar e climática. Com o abandono das políticas de segurança alimentar desenvolvidas no segundo após-guerra, que geralmente buscavam operar estoques reguladores e garantia de renda ao campo, as grandes corporações transnacionais do agronegócio sentiram-se estimuladas a estabelecerem preços inicialmente inferiores aos dos produtores tradicionais. A queda nos preços alimentares durou pouco, porém se mostrou suficiente para que houvesse o maior empobrecimento, quando não a falência dos pequenos agricultores, bem como o aprofundamento da dependência externa de tecnologia (defensivos e fertilizantes agrícolas). Nos dias de hoje, o comportamento dos preços dos alimentos pouco atende aos produtores, mas fundamentalmente às grandes corporações mundiais.


Da mesma forma, o mundo continua a insistir na continuidade do modelo de produção e consumo assentado na profunda degradação ambiental. A consciência de sua insustentabilidade não vem acompanhada da produção e difusão de tecnologias limpas e renováveis, justamente porque isso implica rever a hierarquia do mundo organizada a partir da desregulação operado pelas grandes corporações transnacionais.


Resumidamente, a contenção do papel do Estado por quase três décadas foi acompanhado por inquestionável processo de concentração brutal da renda e riqueza mundial. A liberalização das economias enfraqueceu o poder dos trabalhadores na barganha pela maior participação dos salários na renda dos países. Em geral, a parcela salarial dos trabalhadores caiu quase 20 pontos percentuais no PIB, de mais de 70% para um pouco acima dos 50% nos países avançados nos últimos trinta anos. Nos países não desenvolvidos, a queda também se generalizou de acima dos 50% para abaixo dos 40% do PIB desde o final da década de 1970. Com o esvaziamento do Estado, as políticas sociais foram abandonando gradualmente a perspectiva da universalização para aderirem à lógica da focalização, tão defendidas até pouco tempo por agencias multilaterais como Bird e FMI. Percebe-se, hoje, como se mostraram incapazes de sustentar o padrão de bem estar social compatível com o grau de avanço econômico dos países. O resultado não poderia ser outro: desigualdade e o quadro geral de relativa regressão socioeconômica.


Mesmo que apresente característica distinta da Depressão de 1929, a crise econômico-financeira atual tende a demandar remédios muito parecidos. Ou seja, o maior fortalecimento do papel do Estado regulador em novas bases, bem como a desconcentração da renda e riqueza no mundo. Tudo isso, no entanto, não deveria ser estabelecido exclusivamente no âmbito nacional, mas, crescentemente no plano supranacional, por ser capaz de por em marcha uma nova ordem mundial comprometida com prosperidade compatível tanto com a justiça social como a sustentabilidade ambiental do planeta.


*Marcio Pochmann é professor licenciado do Instituto de Economia (IE) e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Artigo publicado originalmente no Valor Econômico (27/11)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

20 anos do SUS

O Centro Brasileiro de Estudos em Saúde - CEBES - produziu um documento, aproveitando o aniversário de 20 anos da criação do Sistema Único de Saúde, apontando as insuficiências e debilidades do SUS ainda não corrigidas e superadas, e dando um pontapé inicial na necessária reflexão e mobilização pela garantia do pleno direito à saúde e à vida. Reproduzimos aqui o documento do CEBES.



20 ANOS DO SUS - CELEBRAR O CONQUISTADO. REPUDIAR O INACEITÁVEL.

Nos 20 anos da Constituição Brasileira e do Sistema Único de Saúde - SUS, o Cebes celebra a grande conquista da sociedade brasileira, que mudou a história da política social no país ao instituir a saúde como direito de todos os cidadãos, sem distinção de qualquer natureza, e como dever do Estado.

Nessas duas décadas, profissionais, gestores, movimentos sociais, serviços e a população vêm travando uma dura batalha para fazer com que esse direito seja concreto, contínuo e seguro.

O SUS mudou de forma radical a configuração da atenção à saúde no Brasil. É, sem dúvida, uma das políticas sociais mais abrangentes e distributivas da história nacional, ao tornar o acesso universal e incluir milhões de brasileiros na condição de usuários de saúde.

Com o SUS criou-se um sistema nacional e único, abrangendo todas as áreas relativas ao cuidado em saúde. O SUS reordenou a prestação de serviços, criando uma complexa e ousada estrutura onde união, estados e municípios trabalham em conjunto. Criou e expandiu instâncias de pactuação e participação social inéditas na história do país.

O SUS aumentou a rede de serviços públicos; criou e implementou inúmeros programas de atenção e promoção avançados e abrangentes. A população conhece e usa o SUS todos os dias, seja direta ou indiretamente. Os números do SUS impressionam, demonstram a potência desse jovem sistema e confirmam a importância da instituição do direito à saúde na Constituição.

O SUS é mais que um sistema de saúde. Ele faz parte do pacto social presente na Constituição de 1988, que visa a construir uma sociedade democrática e solidária. Por isso foi inscrito na seguridade social; para, junto com assistência social e previdência, garantir proteção social em condições de igualdade a todos os cidadãos, através de políticas eqüitativas e sistemas universais, públicos e financiados por toda a sociedade.

Esses são preceitos que valorizam a vida, a dignidade e o direito ao futuro como bens inalienáveis de todos. Não há paz e desenvolvimento onde a vida é um valor menor, onde a saúde é considerada uma mercadoria, que mais terá quem mais puder pagar. Não há justiça social onde a atenção à saúde dependa da capacidade e do esforço individual de cada um. Não há futuro para uma sociedade sem bens coletivos sólidos e perenes.

Os governos têm continuamente adiado sua integral responsabilidade com a seguridade social e o SUS, restringindo financiamento, recursos humanos, permitindo a expansão do setor privado em áreas estritamente públicas e sendo permissivo com práticas clientelistas e patrimonialistas.

Em 20 anos de SUS, a saúde tem sido negligenciada em prol de uma de política econômica restritiva e de acordos políticos particularistas. Esse não é o projeto dos brasileiros. O projeto dos brasileiros é que se cumpra a Constituição. E aos governos cabe não somente ‘respeitá-la’; eles têm a obrigação de implementá-la.

E é exatamente o reconhecimento a todos os avanços do SUS que faz com que o Cebes, neste momento de justa celebração, venha registrar sua indignação com a permanência de um conjunto de problemas que atinge de forma cruel a população e ameaça os princípios conquistados.

Nossa indignação faz com que venhamos registrar o que consideramos inaceitável no SUS hoje.

Inaceitável porque ultrapassa os limites do respeito à dignidade humana. Inaceitável porque fere os direitos da cidadania e da democracia. Inaceitável porque corrompe os princípios do que é público, bem de todos, e não pode ser usado em favor de alguns. Inaceitável porque conhecemos as soluções e porque dominamos as condições necessárias para implementá-las.

A sociedade brasileira investiu trabalho e esperanças na construção de um SUS para todos. É inaceitável que governos e gestores, representantes do Estado responsáveis pelo SUS, deixem de cumprir suas diretrizes elementares. Não podemos mais esconder ou justificar as tragédias cotidianas que afligem a população e que podem ser resolvidas já.

O SUS é um projeto nacional, solidário, justo e, acima de tudo, possível.

Por isso consideramos INACEITÁVEL, passados 20 anos:

1 Que ainda não exista uma fonte estável para o financiamento do SUS.

2 Que o gasto público em saúde ainda seja de menos de 1 real por habitante/dia, muito aquém de países menos ricos na América Latina.

3 Que permaneçam as condições precárias de atendimento nos serviços do SUS. O SUS pode e deve prestar serviços dignos aos cidadãos. A população tem direito a saber em que condições será atendida, quanto tempo tardará o atendimento e como proceder em caso de expectativas não cumpridas.

4 Que serviços do SUS ainda não funcionem como uma rede integrada, com porta de entrada única, deixando ao usuário a responsabilidade de buscar por conta própria os serviços de que necessita.

5 Que ainda não tenham sido implementados, em todo o território nacional, mecanismos elementares de gestão de filas que eliminem o sofrimento diário dos usuários.

6 Que na reorganização da atenção seja dada prioridade às UPAs e AMAs, modelo ultrapassado e imediatista de instalação focada de unidades, e que a atenção básica não seja até hoje o eixo estruturante de todo o sistema.

7 Que ainda não tenha sido implantado o cartão SUS, com informações seguras sobre o histórico de cuidados dos usuários, fonte de planejamento, transparência e combate à corrupção.

8 Que a população não tenha ainda acesso seguro e regular aos medicamentos e exames vinculados ao ato terapêutico.

9 Que serviços do SUS ainda hoje não garantam às mulheres grávidas a referência segura de onde vão parir.

10 Que se mantenham discriminações de classe social, gênero, orientação sexual e raça em serviços do SUS.

11 Que serviços e profissionais de saúde continuem maltratando as mulheres que fazem aborto, com negligência no atendimento, ajuizamento moral, denúncias e outras formas de violação de direitos.

12 Que serviços desautorizados pela vigilância sanitária continuem funcionando.

13 Que hospitais lucrativos continuem sendo considerados como filantrópicos e recebendo subsídios públicos.

14 Que se mantenha a dupla porta de entrada nos hospitais públicos e contratados.

15 Que os profissionais de saúde sejam desvalorizados, tenham suas condições de trabalho e salariais aviltadas.

16 Que o SUS permaneça sem uma política nacional de formação e capacitação de recursos humanos.

17 Que, a título de redução do gasto público, se mantenha a farsa dos vínculos precários de trabalho, dependendo de convênios e contratos temporários.

18 Que profissionais usem a precariedade das condições de trabalho como justificativa para ausências e não cumprimento de horários.

19 Que o SUS continue sendo usado como moeda política. É preciso criminalizar o uso político de cargos de direção e dos setores de compras de hospitais do SUS, que estimulam a corrupção, drenam recursos e comprometem a qualidade dos serviços.

20 Que se mantenham transferências e subsídios do setor público para o setor privado de planos e seguros, através da compra de planos para funcionários públicos e da dedução do pagamento de planos no imposto de renda. É injusto que o conjunto da população financie o acesso diferenciado das camadas médias e a sobrevivência e crescimento do setor privado.

21 Que o SUS ainda não estabeleça metas e responsabilidades sanitárias claras a serem cumpridas pelos gestores e governos.

22 Que ainda não haja mecanismos legais de responsabilização de governos e gestores pelos serviços não cumpridos. Essa ausência estimula e encobre a alarmante corrupção no setor.

23 Que as transferências financeiras intergovernamentais ainda sejam feitas de forma verticalizada, em “caixinhas”, engessando o planejamento e a lógica sanitária.

24 Que as políticas sociais sejam ainda hoje, e cada vez mais, fragmentadas e setorializadas. É urgente o estabelecimento de políticas que integrem as distintas áreas sociais, para garantir os direitos instituídos no título VIII da Constituição.

25 Que o país ainda careça de uma política saudável para o meio ambiente, que afaste os riscos do cultivo de transgênicos, do abuso de agrotóxicos, da poluição dos mananciais, do desflorestamento, e também de uma política que assegure condições saudáveis de trabalho no campo e nas indústrias.

26 Que governo e sociedade se recusem a discutir o aborto que praticamos, o consumo de álcool que nos vitima, os acidentes de trabalho que nos aleijam.

27 Que se ignore a importância do complexo produtivo da saúde como forma de afirmação da soberania nacional, como combate á subordinação da produção industrial à lógica de preservação de patentes e domínios de conhecimento, como possibilidade de associar o desenvolvimento industrial à política de proteção social, gerando um exemplar modelo de desenvolvimento nacional.

28 Que não se efetive a concepção de Seguridade Social prevista na Constituição de 88, como condição imprescindível para a coesão social. Essa efetivação passa hoje pela convocação da Conferência Nacional de Seguridade Social.

Transformar o direito à saúde em direito em exercício é dever do Estado e não pode mais ser retardado, sob alegações de qualquer ordem.

Não existe valor superior à vida, muito menos aqueles propugnados pelos defensores de políticas voltadas para o pagamento de juros e produção de superávits fiscais que restringem o investimento social inadiável.

O Cebes conclama a todos a celebrar nossas conquistas, refletir sobre os impasses e desafios e não transigir com o que é inaceitável. Depois de 20 anos, já temos condições de exigir a sua superação imediata!

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Mais um texto da Carta Maior

Mais uma importante reflexão do professor Emir Sader, agora sobre o PT. Boa leitura.

EMIR SADER

"PT envelheceu internamente e precisa se revigorar"

O impulso inicial que deu vida ao PT e desembocou no governo Lula, se esgotou. O dinamismo, a referência hoje está no governo e não no PT. Este precisa revigorar-se social e ideologicamente, para voltar a desempenhar um papel importante no campo político e ideológico do país, que tem na conjuntura já aberta da sucessão presidencial a maior das suas batalhas contemporâneas. A análise é de Emir Sader.

O PT foi a maior esperança da esquerda brasileira – e talvez mundial, em um momento de esgotamento da esquerda tradicional. Depois de mais de duas décadas de existência, desembocou no governo Lula que, medido pela imagem ideológica que o partido tinha na sua fundação ou que exibiu na sua primeira década de vida, seria irreconhecível.

Não se trata agora de fazer uma breve história do partido e saber onde aquele fio original foi cortado e outro perfil foi se desenhando. Certamente ele tem a ver com a projeção da imagem de Lula, por cima e, de certa forma, de maneira independente do partido. Trata-se agora de tentar entender a situação em que se encontra o partido – paradoxalmente com um perfil político extremamente baixo, quando Lula exibe níveis recordes de apoio, de 80%. Em suma, o sucesso do governo não é o sucesso do PT, que ainda não saiu das duas crises que o envolveram nos últimos anos.

O PT sofreu dois duros golpes desde a vitória de Lula, em 2002. O primeiro, o perfil assumido pelo governo, com Palocci funcionando quase como um primeiro-ministro e impondo uma hegemonia neoliberal e continuísta ao governo. Tal como havia se configurado na parte final e decisiva da campanha eleitoral, se constituiu em torno de Lula um núcleo dirigente do governo, que tinha em dois dos arquitetos da vitória – Palocci, com a Carta aos brasileiros, e Duda, com o “Lulinha, paz e amor” -, referências fundamentais.

Palocci dava a linha geral, manejava os recursos, impunha – até mesmo a Lula – o discurso geral do governo. O PT presenciou tudo isso, ferido pela crise de expulsão e posterior saída de outros de seus membros, impotente. Não conseguir defender a reforma da previdência, que atentava contra tudo o que havia defendido, nem as orientações econômicas do duo Palocci-Meirelles, se defendia das posições de ultra-esquerda, que prenunciavam um caminho de isolamento, sectarismo e derrota.

Pouco tempo depois, quando o governo ainda não decolava, veio a chamada “crise do mensalão”, em um momento em que o partido ainda não tinha se refeito da primeira crise. Foram os piores anos da história do PT – 2003-2005. A imagem do partido foi revertida de partido ético, da transparência, para partido vinculado a negociatas e à corrupção, uma reversão da qual não conseguiu e dificilmente conseguirá sair. Apesar das eleições internas, que recuperaram um pouco da auto-estima, sem forjar uma nova direção com capacidade de redefinir o papel do PT e suas relações com o governo.

Lula e o governo se safaram da crise a partir dos efeitos das políticas sociais que se fortaleceram com as mudanças dentro do governo – especialmente a queda de Palocci e o enfraquecimento das suas orientações dentro do governo – e com o papel dinâmico que Dilma Rouseff passou a imprimir nas ações governamentais.

Mas, de alguma maneira o governo se safou com a crise exportada para o PT. A imagem que ficou foi a de que “os petistas” haviam cometido graves erros, que quase comprometeram irremediavelmente o governo Lula. E as acusações sobre José Dirceu e sobre os principais dirigentes partidários confirmavam essa versão. E o baixo perfil das direções posteriores, tanto a que foi eleita no PEC, quanto posteriormente pelo Congresso, foram na mesma direção, pelo baixo perfil dessas direções, pela falta de capacidade de iniciativa política e de mobilização da própria militância do PT.

O Congresso, ao invés de um grande balanço do primeiro governo de esquerda, conquistado ao longo das lutas de toda a história do PT, acabou sendo mais um acerto de contas entre as tendências sobre a crise do partido. Criticas à política econômica reafirmaram certo grau de independência diante do governo, mas em geral a avaliação deste e, sobretudo, as propostas para o segundo governo, não foram o centro do Congresso, desperdiçado para recuperar a capacidade de ação do PT.

No entanto, os problemas vêm de mais atrás e são mais profundos. A via moderada escolhida pelo PT já se assentava numa perda do peso da militância jovem e da militância social, marcante já no Congresso de 2000, realizado em Pernambuco. O partido perdeu capacidade de empolgar e mobilizar os que lutam ou poderiam ser despertados para a luta por um outro país, por “um outro mundo possível”. Uma parte destes trabalham em torno do MST ou de outros movimentos sociais, outros permanecem no PT, mas sem ímpeto de ação. O envelhecimento interno do partido é óbvio, não apenas na idade dos seus membros, mas também na falta de idéias, de criatividade, de alegria, de encarar os novos desafios com um rico e pluralista debate interno.

É como se o PT estivesse ainda sofrendo os efeitos de uma quase morte da experiência de governo, tivesse se safado por pouco, mas tivesse exaurido suas energias na sobrevivência, não voltando a ganhar ímpeto, criatividade, iniciativa, capacidade de liderança e, principalmente, de mobilização de novas camadas.

A elaboração de uma plataforma pós-neoliberal e o apoio decidido à organização das bases sociais pobres que apóiam substancialmente ao governo Lula – se constituem nas duas maiores tarefas que o PT tem que enfrentar, para se renovar, se revigorar. Encarar frontalmente o tema da plataforma com que vai lutar para o governo posterior ao de Lula e recompor suas bases sociais de apoio, na direção das grande massas do nordeste e das periferias das grandes metrópoles – onde residem os imensos bolsões de pobreza beneficiados pelas políticas sociais do governo – para reconquistar energia, capacidade de luta, de mobilização.

Porque o impulso inicial, o que deu vida ao PT e desembocou no governo Lula, se esgotou. O dinamismo, a referência hoje está no governo e não no PT. Este precisa revigorar-se social e ideologicamente, para voltar a desempenhar um papel importante no campo político e ideológico do país, que tem na conjuntura já aberta da sucessão presidencial a maior das suas batalhas contemporâneas. É uma nova grande possibilidade para o PT, onde se disputa o futuro do Brasil na primeira metade do século – na consolidação, correção de rumos, aprofundamento das linhas progressistas do governo atual ou no catastrófico retorno do bloco de direita ao governo.

O papel do PT será essencial se assumir a luta pelo cumprimento desses dois objetivos essenciais: formulação da plataforma pós-neoliberal para a campanha de 2010 e trabalho duro na organização das grandes camadas pobres que dão sustentação ao governo Lula.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Ainda sobre a tortura

Mais um artigo surrupiado da Agência Carta Maior. Continuaremos fazendo isso periodicamente, enquanto não resolvermos o problema da (precoce?) crise editorial de Geléia Geral (estamos trabalhando tanto que não sobra tempo de escrever nada aqui... até o escândalo do Carlos Eugênio Simon passou em branco... mas vamos deixar o roubo contra o Flamengo pra outra hora). Boa leitura.

DEBATE ABERTO

Em seu devido lugar

Para o jornalismo da revista Veja, aparentemente, 4000 assassinatos e milhares de sessões de tortura talvez justifiquem a punição de seus responsáveis, mas 400 mortes e poucas centenas de sessões de sadismo, não.

Marcelo da Silva Duarte

Ao menos duas falácias históricas e uma analogia bizarra falseiam a compreensão da idéia de revisão do princípio da Lei da Anistia apresentada por "Questão fora de lugar - A idéia de revisar o princípio da Lei da Anistia revela a falta de foco do ministro da Justiça", reportagem de Diogo Schelp para a revista Veja (12/11/2008).

"Quinze anos depois da instauração do regime militar no Brasil", afirma Schelp, "generais e opositores chegaram a um acordo que permitiria iniciar o processo de abertura política, sem maiores solavancos". Tal acordo "foi a Lei da Anistia, assinada em 1979". Para que tal entendimento fosse amplo, geral e irrestrito, continua Schelp, "e não parcial, como queria boa parte da caserna -, reuniram-se políticos, estudantes e trabalhadores naquele que foi o primeiro movimento coordenado da sociedade civil depois do golpe de 1964. Graças à anistia, conquista intensamente festejada por todos os democratas, puderam voltar ao país ou sair da clandestinidade José Serra, Fernando Gabeira, Leonel Brizola, José Dirceu e Franklin Martins, entre outros exilados ilustres e nem tanto".

Embora, de fato, o movimento pela anistia representasse o grosso das entidades envolvidas na luta pela cidadania, Schelp parece considerar uma questão menor o fato de que o projeto encaminhado pelos militares ao Congresso, em junho de 1979, atendia apenas parte do apelo das entidades abrigadas sob o Comitê Brasileiro pela Anistia, uma vez que desavergonhadamente (i) favorecia os militares, incluindo aqueles responsáveis pelas práticas de tortura, e (ii) de sua amplitude excluía os condenados por "terrorismo". Não foi, inclusive, sem muita mobilização popular no dia da votação da referida lei, em Brasília, que a anistia foi estendida aos civis. A aparente harmonia entre os interesses das partes em negociação sugerida pela reportagem, portanto, parece jamais ter existido, já que a vontade dos militares era anistiar unicamente os torturadores e manter em porões os torturados, considerados como "terroristas".

A pacificação interna da qual se ufana Schelp foi, na verdade, o melhor que poderia ser obtido pela sociedade diante das circunstâncias, a saber, diante de uma ditadura, por definição um regime totalitário onde não há espaço para negociação exatamente porque há imposição. Se Schelp não tem claro tal conceito é um problema dele, mas daí não se segue que a menos pior dentre determinadas alternativas faça justiça com a história.

Principalmente com a história de quem não esteve presente no ato de pacificação que a reportagem incensa. Entre os "generais e opositores" -"políticos, estudantes e trabalhadores" - que chegaram a um acordo não estavam os assassinados pela democrática ditadura de Schelp. Talvez eles também quisessem ser ouvidos a respeito de como se sentiram minutos antes de serem mortos, logo após algumas semanas de tortura. E embora essa também pareça uma questão menor aos olhos da reportagem, uma vez que mortos não falam, seria interessante saber se todos os assassinados e torturados pela ditadura militar brasileira concordariam que o princípio da Lei da Anistia é irrevisável em função de ter sido o fruto harmônico de uma democrática discussão.

O que Schelp parece ignorar é que aquilo que toma como princípio da Lei da Anistia, "a saber: o perdão a todos os cidadãos acusados de cometer crimes políticos", ou seja, sua amplitude, é uma falácia que - harmonicamente, ao menos em sua visão - subsume duas verdades históricas irreconciliáveis. Só faríamos justiça com nossa memória se exclusivamente fosse considerado crime político todo aquele ato praticado contra o aviltamento da democracia patrocinado pela caserna, e jamais aqueles praticados contra esse justo e legítimo direito de sublevação cidadã pelo Exército, o único criminoso durante a recente ditadura militar brasileira. O direito ao exercício da repressão oficial, obtido injusta e ilegitimamente pelos militares a partir do golpe antidemocrático de 1964, exercido a todo vapor contra um legítimo e justo direito à sublevação, portanto, jamais poderia ser considerado crime político ou conexo a crime político, uma vez que praticado ao arrrepio da ordem democrática vilipendiada pelos próprios militares.

"Quando um povo é obrigado a obedecer e o faz - disse Jean Jacques Rousseau em seu “Do Contrato Social” - age acertadamente; assim que pode sacudir esse jugo e o faz, age melhor ainda, porque, recuperando a liberdade pelo mesmo direito por que lha arrebataram, ou tem ele o direito de retomâ-la ou não o tinham de subtraí-la".

Em seu socorro, Schelp parece avalizar tese recentemente abraçada por Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, segundo a qual "embora tortura e terrorismo sejam imprescritíveis, nada impede que tais práticas sejam anistiadas", que de modo logicamente estabanado distribui um mesmo sentido de imprescritibilidade entre fatos históricos contrários do ponto de vista contextual. Não contava, porém, com um tiro no pé: se da imprescritibilidade dos crimes de tortura e terrorismo não se segue que não sejam anistiáveis, então da amplitude principiológica da Lei da Anistia não se segue sua irrevisibilidade. Nada impede, por conseguinte, que o princípio da Lei da Anistia seja revisado, embora amplo, geral e irrestrito.

Schelp também sofisma ao afirmar que "os terroristas de esquerda que mataram, roubaram, seqüestraram e mutilaram (...) lutavam pela implantação de uma ditadura comunista". Donde, por conseguinte, a legitimidade da repressão oficial e a impossibilidade de inocentá-los sem, simultaneamente, inocentar seus torturadores. Entretanto, do fato da uma das estratégias da resistência armada ter priorizado o foco revolucionário não se segue que toda resistência lutava pela implementação do embrião comunista. A tortura contra a resistência, porém, longe de qualquer sofisticação lógico-semântica, de sua parte correu ampla, geral e irrestrita.

Todavia, se ele também acredita que as reformas de base propostas pelo governo João Goulart culminariam com a implantação de um regime totalitário comunista no Brasil e que Leonel Brizola recebeu dinheiro de Cuba para financiar a luta armada contra a ditadura, então sim, a resistência cidadã lutava pela implementação de uma ditadura comunista. Porém, se Schelp não aprendeu história em colégios militares, então ao menos deveria saber que a resistência cidadã não lutava pela implementação de uma ditadura, mas sim pela democracia e pela liberdade exatamente contra uma ditadura.

Graças a essa luta é que hoje Schelp pode dar sua opinião sobre sua própria história e a falta de foco do ministro da Justiça, porém sem correr o risco de ser torturado por isso.

Schelp finaliza afirmando que "Argentina e Chile optaram por revogar suas leis de anistia e deram andamento à punição de alguns dos responsáveis pelos crimes de suas ditaduras", mas ressalva que o acerto de contas de argentinos e chilenos com seus torturadores e assassinos se trata de "situações distintas da do Brasil, onde a magnitude da repressão foi bastante inferior".

Ou seja, o direito de punir responsáveis por crimes cometidos por ditaduras parece ser diretamente proporcional à magnitude da repressão que os autorizou a torturar e assassinar seus semelhantes. Quanto maior a repressão, maior o direito de puni-los; porém, se a repressão não foi assim tão ampla, então esse direito parece sequer fazer sentido. Ora, isso parece implicar, na escala moral de Schelp, que punir tanto a morte quanto a tortura é eticamente irrelevante todas as vezes que a magnitude de uma repressão for inferior a um determinado padrão opressor. Resta sabermos, porém, quem o estabelece e de que forma funciona. Para o jornalismo da revista Veja, aparentemente, 4000 assassinatos e milhares de sessões de tortura talvez justifiquem a punição de seus responsáveis, mas 400 mortes e poucas centenas de sessões de sadismo, não.

Foco parece não faltar ao repórter da Veja. Mas Diogo Schelp, infelizmente, é um homem sem memória.

* Mestrando em filosofia. Mantém o blog www.laviejabruja.blogspot.com

sábado, 22 de novembro de 2008

Mais uma do Emir

Surrupiei mais um texto do Blog do Emir Sader. Compartilho com vocês aqui no nosso espaço coletivo.

21/11/2008

A crise da extrema esquerda

Os resultados das eleições municipais vieram corroborar o que o cenário político nacional já permitia ver: o esgotamento do impulso da extrema esquerda, que tinha sido relançada no começo do governo Lula. A votação em torno de 1% de dois dos seus três parlamentares, candidatos a prefeito em São Paulo e no Rio de Janeiro, com votações significativamente menores do que as que tiveram como candidatos a deputados, sem falar na diferença colossal em relação à candidata à presidência, apenas dois anos antes – são a expressão eleitoral, quantitativa, que se estendeu por praticamente todo o país, do esgotamento prematuro de um projeto que se iniciou com uma lógica clara, mas esbarrou cedo em limitações que o levam a um beco difícil, se não houver mudança de rota.

A Carta aos Brasileiros, anunciando que o novo governo não iria romper nenhum compromisso – nesse caso, com o capital financeiro, para bloquear o ataque especulativo, medido pelo “risco Lula” -, a nomeação de Meirelles para o Banco Central e a reforma da previdência como primeira do governo – desenharam o quadro de decepção com o governo Lula, que levaria à saída do PT de setores de esquerda. A orientação assumida pelo governo inicialmente, em que a presença hegemônica de Palocci fazia primar os elementos de continuidade com o governo FHC sobre os de mudança – estes recluídos basicamente na política externa diferenciada e em setores localizados – e a reiteração de um governo estritamente neoliberal davam uma imagem de um governo que era considerado pelos que abandonavam o PT, como irreversivelmente perdido para a esquerda.

O dilema para a esquerda era seguir a luta por um governo anti-neoliberal dentro do PT e do governo ou sair para reagrupar forças e projetar a formação de uma nova agrupação. Naquele momento se cogitou a constituição de um núcleo socialista, dos que permaneciam e dos que saíam do PT, para discutir amplamente os rumos a tomar. Não apenas cabia uma força à esquerda do PT, como se poderia prever que ela seria engrossada por setores amplos, caso a orientação inicial do governo se mantivesse.

Dois fatores vieram a alterar esse quadro. O primeiro, a precipitação na fundação de um novo partido – o Psol -, com o primeiro grupo que saiu do PT – em particular a tendência morenista – passando a controlar as estruturas da nova agremiação. Isto não apenas estreitou organizativamente o novo partido, como o levou a posições de ultra-esquerda, responsáveis pelo seu isolamento e sectarização. A candidatura presidencial nas eleições de 2006 agregou um outro elemento ao sectarismo, que já levaria a uma posição de eqüidistância em relação ao governo Lula. O raciocínio predominante foi o de que o governo era o melhor administrador do neoliberalismo, porque além de mantê-lo e consolidá-lo, o fazia dividindo e confundindo a esquerda, neutralizando a amplos setores do movimento de massas. Portanto deveria ser derrotado e destruído, para que uma verdadeira esquerda pudesse surgir. O governo Lula e o PT passaram a ser os inimigos fundamentais da nova agrupação.

Esse elemento favoreceu a aliança – já desenhada no Parlamento, mas consolidada na campanha eleitoral – com a direita – tanto com o bloco tucano-pefelista, como com a mídia oligárquica -, na oposição ao governo e à reeleição de Lula. A projeção midiática benevolente da imagem da candidata do Psol lhe permitia ter mais votos do que os do seu partido, mas comprometia a imagem do partido com uma campanha despolitizada e oportunista, em que a caracterização do governo Lula não se diferenciava daquela feita na campanha do “mensalão”. Como se poderia esperar, apesar de algumas resistências, a posição no segundo turno foi a do voto nulo, isto é, daria igual para o novo partido a vitória do neoliberal duro e puro Alckmin ou de Lula. (Se tornava linha nacional oficial o que já se havia dado nas primeiras eleições em que o Psol participou, as municipais, em que, por exemplo, em Porto Alegre, diante de Raul Pont e Fogaça, no segundo turno, se afirmou que se tratava da nova direita contra a velha direita e se decidiu pelo voto nulo.)

Uma combinação entre sectarismo e oportunismo foi responsável pelo comprometimento da orientação política do novo partido, que o levou a perder a possibilidade de formação de um partido à esquerda do PT, que se aliasse a este nos pontos comuns e lutasse contra nos temas de divergência. O sectarismo levou a que sindicatos saíssem da CUT, sem conseguir se agrupar com outros, enfraquecendo a esquerda da CUT e se dispersando no isolamento. Levou a que os parlamentares do Psol votassem contra o governo em tudo – até mesmo na CPMF – e não apoiassem as políticas corretas do governo – como a política internacional, entre outras. Esta se dá porque o governo brasileiro tem estreita política de alianças com as principais lideranças de esquerda no continente – como as de Cuba, Venezuela, Equador, Bolívia -, que apóiam o governo Lula, o que desloca completamente posições de ultra-esquerda – que se reproduzem de forma similar a dessa corrente no Brasil nesses países -, deixando de atuar numa dimensão fundamental para a esquerda – a integração continental.

Por outro, o governo Lula passou a outra etapa, com a saída de vários de seus ministros, principalmente Palocci, conseguindo retomar um ciclo expansivo da economia e desenvolvendo efetivas políticas de distribuição de renda, ao mesmo tempo que recolocava o tema do desenvolvimento como central – deslocando o da estabilidade, central para o governo FHC -, avançando na recomposição do aparelho do Estado, melhorando substancialmente o nível do emprego formal, diminuindo o desemprego, entre outros aspetos.

A caracterização do governo Lula como expressão consolidada do neoliberalismo, um governo cada vez mais afundado no neoliberalismo – reedição de FHC, de Menem, de Carlos Andrés Perez, de Fujimori, de Sanchez de Losada – se chocava com a realidade.

Economistas da extrema esquerda continuaram brigando com a realidade, anunciando catástrofes iminentes, capitulações de toda ordem, tentando resgatar sua equivocada previsão sobre os destinos irreversíveis do governo, tentando reduzir o governo Lula a uma simples continuação do governo FHC, reduzindo as políticas sociais a “assistencialismo”, mas foram sistematicamente desmentidos pela realidade, que levou ao isolamento total dos que pregam essas posições desencontradas com a realidade.

O isolamento dessas posições se refletiu no resultado eleitoral, em que todas as correntes de ultra-esquerda ficaram relegadas à intranscendência política, revelando como estão afastadas da realidade, do sentimento geral do povo, dos problemas que enfrenta o Brasil e a América Latina. As políticas sociais respondem em grande parte pelos 80% de apoio do governo,rejeitado por apenas 8%. Para a direita basta a afirmação do “asisistencialismo” do governo e da desqualificação do povo, que se deixaria corromper por “alguns centavos”, mas a esquerda não pode comprá-la, por reacionária e discriminatória contra os pobres.

Confirmação desse isolamento e de perda de sensibilidade e contato com a realidade é que não se vê nenhum tipo de balanço autocrítico, sequer constatação de derrota da parte da extrema esquerda. Se afirma que se fizeram boas campanhas, não importando os resultados, como se se tratassem de pastores religiosos que pregam no deserto, com a consciência de que representam uma palavra divina, que ainda não foi compreendida pelo povo. (Marx dizia que a pequena burguesia sofre derrotas acachapantes, mas não se autocrítica, não coloca em questão sua orientação, acredita apenas que o povo ainda não está maduro para sua posições, definidas essencialmente como corretas, porque corresponderiam a textos sagrados da teoria.)

Não fazer um balanço das derrotas, não se dar conta do isolamento em que se encontram, da aliança tácita com a direita e das transformações do governo Lula – junto com as da própria realidade econômica e social do país –, da constatação do caráter contraditório do governo Lula, que não deveria ser se inimigo fundamental revelariam a perda de sensibilidade política, o que poderia significar um caminho sem volta para a extrema esquerda. Seria uma pena, porque a esquerda brasileira precisa de uma força mais radical, que se alie ao PT nas coincidências e lute nas divergências, compondo um quadro mais amplo e representativo, combinando aliança a autonomia, que faria bem à esquerda e ao Brasil.

Postado por Emir Sader às 05:25